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Diana Domingues

14 de Novembro de 2013, 12:42 , por Carla Rocha - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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“Partiu ainda dos jurados a proposta de uma homenagem à artista multimídia gaúcha Diana Domingues, também professora acadêmica e batalhadora incansável na difusão e na sedimentação da produção artística em meios eletrônicos e digitais.

Contribuições significativas como as de Diana Domingues e Paulo Bruscky possibilitam hoje produções que incorporam as mais recentes ferramentas tecnológicas, problematizando ou tensionando suas potencialidades. Premiar e homenagear esses artistas é também uma forma de o Prêmio Sergio Motta estabelecer pontes e destacar aspectos relevantes da historiografia da arte digital brasileira, através de seus mais destacados integrantes.”

Camila Duprat Martins, Superintendente do ISM

 

Uma artista superlativa

Por Lucia Santaella

 

 

“Dianíssima Domingues”, assim a também artista Giselle Beiguelman refere-se à colega. De fato, tudo em Diana Domingues é superlativo: professora e orientadora superlativa, pesquisadora superlativa e, sobretudo, artista superlativa, reconhecida internacionalmente. Não há pesquisadores ou artistas engajados no campo da arte e tecnologia, em quaisquer partes do mundo, que não tenham conhecimento da pessoa e dos trabalhos de Diana Domingues. Citada em vários livros estrangeiros e artista premiada, seu nome engrandece não apenas a cidade onde nasceu, Caxias do Sul, mas também nosso país.

Exigentíssima consigo mesma e com o outro, Diana Domingues é obstinada, incansável, uma força da natureza, um furor de energia, e proprietária de um invejável imaginário proliferante. Justamente esse indomesticável imaginário é o que constitui a marca registrada de sua arte. Um imaginário que não afugenta, ao contrário, sabe tirar proveito das intrincadas complexidades das tecnologias de ponta e das ciências avançadas. Dessas alianças, nasce uma arte sintonizada com o que há de mais híbrido e inovador no território da criação artística contemporânea. Desde o início dos anos 1980, a artista já usava o som cardíaco e suas grafias em ambientes participativos através de estetoscópios eletrônicos, osciloscópios, amplificadores, neons.

No final dos anos 1980, quando as tecnologias multimídia estavam se tornando disponíveis aos artistas, Domingues produzia atmosferas oníricas nas instalações que exploravam o caráter volátil, evanescente e metamórfico dos corpos e das subjetividades. Esses trabalhos funcionaram como porta de entrada para a trajetória mais radical que viria, em meados dos anos 1990, na série de videoinstalações TRANS-E: o corpo e as tecnologias e na obra In-Viscera, uma instalação multimídia composta por cinco telas transparentes onde eram teleprojetadas videolaparoscopias tratadas eletronicamente.

As imagens, passeando pelo interior das vísceras vivas, haviam sido gravadas por uma microcâmera durante uma cirurgia. É quase impossível dar conta da produção prolífica, ininterrupta como um rio caudaloso, de Diana Domingues. Limito-me, por isso, a apontar para alguns marcos definidores de sua trajetória. Das paisagens produzidas pela percepção sensível dos interiores do corpo auscultado pelas tecnologias avançadas, a artista caminhou para o corpo conectado a interfaces em ambientes sensorizados e softwares comandados por redes neurais, inspiradas em nosso sistema nervoso biológico.

No ano 2000, seu My Body, My Blood apresentava um sistema imersivo com interfaces para a propriocepção e animações estereoscópicas, o que lhe valeu o prêmio Unesco para a Promoção das Artes, durante a 7ª Bienal de Havana. Das redes neurais, Domingues deu um passo além na complexidade, saltando para a vida artificial. A instalação Terrarium-Viveiro explora parâmetros que criam serpentes artificiais controladas por um sistema de algoritmos genéticos preparado para executar e processar cálculos, simulando características de ambientes orgânicos. Mais um passo foi dado em HEARTscape, um ambiente virtual imersivo que oferece interações com um coração virtual simulado. Tratase de um lugar que simula uma caverna para receber o corpo do participante.

Este fica totalmente envolvido pela sensação de dissolução de seus limites corporais amalgamados com o ambiente que pulsa e palpita. Exemplar do gênio indômito da artista é a ciberinstalação L´Mito – Zapping mobile zone (2004-2006), um sistema interativo que envolve realidade virtual, mineração de dados na rede, inteligência artificial, algoritmos genéticos e que apresenta como interface nada menos que leitor a laser de código de barras, projeções ampliadas, óculos para estereoscopia e tela sensível ao toque. Dessa alquimia estética de base tecnocientífica, Diana Domingues migrou para a plataforma social Living Tattoos, um software especulativo visando à criação de uma ciberplataforma para uma comunidade de tattoos baseada em uma rede social colaborativa.

A sequência inesgotável dos trabalhos de Diana Domingues não para aí. A documentação descritiva e crítica do elenco completo de sua obra exigiria um livro. Enquanto isso não se realiza, basta mencionar que hoje a artista, rodeada de cientistas por todos os lados, encontra-se em um ambiente que faz jus à sua irresistível atração por uma estética que brota no cerne da tecnociência. No seu laboratório de pesquisa junto ao programa de engenharia biomédica da Universidade de Brasília, desenvolve projetos artísticos em interfaces afetivas, sistemas vestíveis biocíbridos, eletromiografia, visualização de dados, reconhecimento de voz, paisagens sonoras e realidade aumentada móvel na vida urbana misturada. Recentemente, via redes, pedi a Diana Domingues que me descrevesse seus mais recentes interesses e criações.

Sua resposta jorrou como uma tempestade criadora. Diz ela que, no ambiente em que vive, “artistas, engenheiros, biólogos, geógrafos, filósofos, físicos, médicos, músicos, coreógrafos, matemáticos, cientistas da computação investigam a reengenharia da vida e a reengenharia dos sentidos, a reengenharia da natureza, a reengenharia da consciência e a reengenharia da cultura.

Interfaces enativas para acoplamentos estruturais em presenças colocalizadas no espaço físico e no espaço de dados levam a evasões em RV em CAVE. Interfaces plurissensoriais e crossmodais, comunicação ubíqua e móvel, interfaces locativas, pervasivas e sencientes, mapeamentos e traçados em geolocatividade, realidade aumentada e misturada, interfaces biológicas, visão computacional, tagueamento e geotagueidade, processamento de sinais, biomas, clima e biodiversidade, leis e fenômenos do cosmos, interfaces sinestésicas que redefinem e suplementam a fisiologia corporal em biofeedback e bioengenharia, circuitos miniaturizados de comunicação remota e portabilidade são soluções criativas do aparato tecnológico desafiando o ecossistema”.

O que mais seria necessário acrescentar como comprovação das transfigurações fulgurantes pelas quais a tecnociência pode passar, quando contagiada pelo imaginário fecundante de uma artista?

 

 

Lucia Santaella é professora e livre-docente em ciências da comunicação (ECA-USP). Coordenadora da pós-graduação em tecnologias da inteligência e design digital, diretora do CIMID (Centro de Investigação de Mídias Digitais) e coordenadora do Centro de Estudos Peirceanos, todos na PUC-SP. É presidente honorária da Federação Latino-Americana de Semiótica, foi presidente da Charles S. Peirce Society (USA, 2007) e vice-presidente da Associação Internacional de Semiótica (1989 e 1999). Recebeu os prêmios Jabuti (2002, 2009), Sergio Motta (2005) e Luiz Beltrão (2010).

 

 

3 de outubro de 2011.

 

 

 Catalogo final do Sergio Motta: http://www.ism.org.br/ism/wp-content/uploads/2011/10/catalogo_9psm1.pdf

http://www.ism.org.br/ism/?p=3256


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